segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cristianismo: uma questão de valores positivos?


Há muitos cristãos que procuram uma espécie de harmonia com as outras religiões e maneiras de pensar e que para isso falam no Cristianismo como um conjunto de “valores” universais que pensam corresponder aos princípios que qualquer ser humano “bom” reconhece. Disfarçam-no com palavras como bondade, solidariedade, contemplação; expressões não comprometedoras e compatíveis com outros sistemas de pensamento. Pensam, com isto, contribuír para o bem comum, ultrapassarem as diferenças, não se imporem, serem tolerantes. Pensam que, no fundo, o cristianismo é amor e paz, que todos cremos no mesmo Deus ou que ainda que alguém não creia em Deus, compreenderá essa linguagem mais neutra.
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Mas viver o cristianismo e falar sobre essa experiência tão particular nunca se poderia limitar à promoção dos seus “bons valores” ou a terminologias mais fáceis de digerir. Os primeiros cristãos nunca promoveram valores, contaram histórias. Histórias pessoais, testemunhos do que viveram no momento em que o nome de Jesus entrou nas suas vidas. Um cristão maduro não “faz o bem” sem mencionar o nome de Jesus.
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O que é ser “bom”? O próprio Jesus respondeu a um interlocutor que O chamou de “Bom Mestre” respondendo-lhe que “só Deus é Bom”. Essa afirmação poderia muito bem ser a resposta de Jesus à pretensão duma religião cristã “light” que tenta esconder uma parte da sua fé com o objectivo de ser ouvida e de promover a convivência dos povos multiculturais. No fundo, uma tentativa de promover a paz. Mas pode-se dizer, tal como Jesus: “o que é a paz? Só Deus é Paz”. Nesse sentido, falar-se em paz sem Deus será como descrever-se o pôr-do-sol sem se falar no sol.
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Essa pretensão não é mais do que uma negação do nome de Jesus com uma espécie de vergonha ou dum sentimento de caridade pervertido: quer-se poupar os outros das nossas convicções pois estas poderão ser uma forma de imposição. O problema é que esse tipo de caridade invertida é precisamente resultado duma falta de convicção. O que os outros mais valorizam é a nossa verdade interior, o nosso testemunho mais autêntico. Um cristão que disfarça o nome de Jesus não apanhou o principal. Quer dissecar e separar um todo que não é separável. Ao responder ao Seu interlocutor, Jesus parece sugerir que a palavra “bom” não faz sentido sem que a pessoa que a disser esteja ao mesmo tempo a fazer uma confissão de fé em Deus. Parece dizer que na verdade não existem valores positivos se não existe Deus, porque Deus é a causa e a definição do bem.
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O Evangelho contém valores positivos, sim; mas é falso e demasiado superficial falar-se desses valores sem se falar no nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus; ou nas histórias pessoais pelas quais cada cristão começou a “confessar o nome de Jesus”. São Paulo, por exemplo, explica a sua fé relatando o acontecimento concreto de ter sido cegado por uma luz no caminho de Damasco. Essa experiência é a sua verdade e ele não precisa de procurar formas de a disfarçar. Não a explica como um desejo de positividade, de solidariedade, de inspiração, ou outra qualquer dessas palavras da moda que talvez pudessem ser melhor digeridas. A sua fé foi desencadeada pela intervenção de Deus na sua história, no seu coração, e essa é a parte que lhe interessa anunciar. Foi uma intervenção com palavras concretas: a luz que o cegou chamou-o pelo nome e identificou-se: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Actos dos Apóstolos, capítulo 9, versículo 5).
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Foi-nos dado um critério que é a medida do grau de “positividade” que cada pessoa tem dentro de si: “Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus.” (1ª carta de João, capítulo 4, versículo 15). Um cristão acredita que, em última análise, todos os valores vêm de Jesus. Ele é o Alfa e o Ómega. Ele próprio É em Si todos os bens - incluindo “a paz e o amor” que costumamos desejar uns aos outros pelo Natal.
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Outro dia, numa loja, encontrei um livro escrito por um monge católico que falava de oração e de contemplação. Percorri páginas e páginas desse livro e não vi uma única referência a Jesus. Falava em silêncio, em humildade, em focar a atenção nos estímulos sensoriais, mas nada de Jesus. Isso é uma tendência muito forte, uma espécie de “facção” da Igreja actual. Há muitos assim. Estamos perante uma corrente de espiritualidade católica “trans-religiosa” que está a fazer do cristianismo um tipo de auto-ajuda, uma forma de coaching. Isso não é cristão.
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O que lhes escapa é que Cristo, o Messias, é uma pessoa e não só uma experiência; uma relação e não só um conceito. Que é muito bem entendido tal como é por qualquer ser humano. Que as suas palavras, as suas parábolas, as suas histórias, fazem ressonância no mais fundo de nós. Ele não precisa de disfarces e é maior do que qualquer idéia. Ele não é anónimo. Ele dá-nos a comer a Sua carne. Como poderíamos explicar a alguém que comemos a carne de Jesus se não lhe relatarmos a última ceia, as suas palavras, a sua morte, as primeiras aparições ressuscitado? E como poderia um cristão estar mais interessado em explicar conceitos abstractos do que esse facto central da vida de Jesus?
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Jesus está vivo! Se somos realmente cristãos, acreditamos nisto. Não falemos duma pessoa viva como se ela não estivesse cá; não tenhamos vergonha dela. Não pretendamos ser mais espertos do que Jesus ao pensarmos que faremos melhor bem se não falarmos no Seu nome.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O escândalo da abstinência


A Igreja é tão pouco aquilo que dizem - alheada do corpo e das relações sexuais - que considera que a plenitude duma relação se dá pela união corporal. O corpo é o meio pelo qual um casamento se completa - se não houver união corporal um casamento pode ser considerado nulo. Isto é a elevação do corpo a uma estatura maior - o corpo é visto pela Igreja como estando em perfeita união com o coração, a mente e o espírito (alma, dimensão espiritual da pessoa). Para a Igreja, a relação amorosa no seu sentido pleno - a afectividade e a união emocional e espiritual - não existe sem a inclusão do corpo. Este é um primeiro ponto importante aqui em questão: o corpo e as relações sexuais não são rejeitados pela Igreja nem vistos como secundários ou nefastos, pelo contrário: a Igreja eleva-os até ao ponto de os ver como sinal e convergência de tudo o resto numa relação - a Igreja quer o corpo no centro disto tudo. A relação sexual no seu lugar adequado foi criada por Deus, é de criação divina, é boa, necessária.
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Segundo ponto: quando duas pessoas que não estão totalmente unidas nas suas vidas (nunca casaram) ou que tinham unido as suas vidas a outras pessoas que não a actual (casamento anterior) e se envolvem no plano amoroso, a Igreja continua a atribuir ao corpo, nessa situação, o papel central que sempre teve: no primeiro caso - namorados ou noivos que não são casados - a Igreja recomenda a abstinência até que haja a doação plena das vidas dos dois - porque não é bom começar-se pelo fim. No segundo caso - duas pessoas que têm outro marido ou mulher - a Igreja recomenda a mesma coisa: a abstinência, porque não é bom dar a uma pessoa a expressão duma plenitude que não se viveu com essa pessoa, e que já se tinha vivido com outra pessoa. Isto se quisermos ver as coisas como a Igreja vê, o que, claro, não é obrigatório para ninguém.
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Portanto, a abstinência não é uma rejeição do corpo ou uma visão negativa das relações corporais. É um meio de elevação do corpo e da capacidade relacional da pessoa à sua plenitude. Aqui reside a pertinência desta proposta, a sua raíz. Se, segundo a nossa fé, há numa união entre duas pessoas qualquer incongruência em relação ao sentido maior que a Igreja anuncia para as nossas vidas, à felicidade no seu sentido puro, então seria mais sensato que essas duas pessoas - como forma de ponderação e para conseguirem uma maior clarividência - não levassem essa relação à expressão que a Igreja considera ser a plenitude total duma relação: a união corporal. Seria mais sensato que essas duas pessoas se lembrassem que, um dia, puseram Deus no centro das suas vidas (ou não seriam sequer cristãs) e que foi a partir desse centro que passaram a tomar todas as outras decisões das suas vidas. Seria mais sensato essas duas pessoas "caírem em si", "vigiarem e orarem", e reflectirem acerca do lugar que essa relação tem no plano maior da vida, no Universo, no Reino de Deus. Isto não se consegue sem uma outra coisa que a Igreja aconselha: despojamento. "Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém", como disse S. Paulo.
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Terceiro ponto: um Cardeal emite uma mensagem (ver aqui) destinada à comunidade de crentes que supostamente acreditam no mesmo conjunto de coisas, que são da mesma comunidade da qual esse Cardeal é representante e orientador; tendo como base esta visão que é antiga e profundamente cristã, esse Cardeal fala em abstinência. E recebe, tanto dos seus orientandos como dos homens que não pertencem a essa comunidade e que não partilham da mesma fé, um conjunto de críticas por ter dito uma palavra que agora é proíbida: abstinência.
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Quanto aos que rejeitam a idéia da abstinência mas que também rejeitam tudo o resto em que o Cardeal acredita - que não seguem a mesma doutrina que ele segue, que não acreditam em Jesus - é muito simples: se não querem, não sigam o que ele diz, não é obrigatório. Mas é preciso terem em atenção que a Igreja não é um partido político nem um clube, à qual se possa aplicar um código de conduta externo às razões que motivam toda a sua existência. É preciso terem em atenção que a fé cristã é um caminho alternativo que não pretende ser convencional nem encaixar nas mundividências de quem não a quer seguir; que é uma proposta para quem quer viver duma maneira diferente da que "o mundo" vive, e que portanto logo à partida contradiz as tendências de quem não foi por aí. Esta é a própria lógica do Baptismo - rejeitar uma vida segundo os princípios dum mundo sem Deus, e aderir ao caminho que Jesus seguiu e anunciou. Há uma oposição, uma diferença, entre viver segundo uma coisa ou segundo a outra.
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Quanto aos que rejeitam a idéia da abstinência mas dizem ter a mesma fé do Cardeal, a questão é mais difícil. Primeiro, é estranho alguém acreditar em Jesus e não acreditar no despojamento, na renúncia, na reorganização da vida em função do bem maior. Mas o principal - e aí é que entra a grande razão para a misericórdia e a caridade que a Igreja deve ter para com essas pessoas - é que os crentes que vivem a situação profundamente dolorosa e paradoxal duma união ilegítima encontram-se numa encruzilhada muito difícil entre duas opções vitais: "consumar" uma relação amorosa que está a dar resposta (relativa) a muitas necessidades humanas (como a companhia, a partilha, a troca de afecto, um projecto comum muitas vezes já num estado de envolvimento avançado) mas que em si mesma constitui um obstáculo à segunda opção; ou "consumar" a relação maior da vida, a que satisfaz e dá sentido a todas as outras: a relação com Deus. Para um cristão católico, comungar a Eucaristia é consumar a relação com Deus, é a expressão maior dessa relação e a sua plenitude. Por outro lado, a união corporal com alguém com quem não se está unido no matrimónio é também a consumação dessa relação e de tudo o que ela implica. Estas duas opções de consumação estão em oposição uma à outra, não é possível realizar ambas. E o facto de tantos crentes se verem confrontados com um paradoxo interno entre duas dimensões tão profundas do seu ser, trata-se duma armadilha demoníaca em que caem e que lhes traz muito sofrimento.
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Como explicar aos próprios irmãos na fé, aos seguidores de Jesus, que a Eucaristia é a consumação da mais importante relação que nos é possível ter, que é a expressão máxima da plenitude dum Cristão? Como lhes explicar que essa é a relação que dá sentido a todas as outras? Como lhes explicar aquilo que já deveria estar profundamente inscrito nos seus corações? O Cardeal Patriarca de Lisboa, ao aconselhar a abstinência a quem está na posição dolorosa de escolher entre estas duas opções, pode estar a salvar vidas espirituais, almas, pessoas. A vida verdadeira, aquela que nos faz inteiros e livres, que nos dá aquela luz interior que faz os nossos olhos brilharem e o nosso sorriso ser autêntico e total, vem dessa parte mais profunda de nós na qual Deus fala connosco e nos chama a sermos inteiros. Por essa razão eu não critico o nosso Cardeal Patriarca.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Igreja, casamento, sacerdócio, e o Papa Bento XVI

Ontem estive na Missa Nova (primeira missa) dum grande homem que foi ordenado Padre há uma semana. Há qualquer coisa de inefável nisso. Sim, foi esta a palavra melhor que encontrei para isto: inefável - "que não se pode exprimir por palavras, indescritível, encantador". É um bocadinho louco fazer-se uma coisa dessas. Ou então, é a coisa menos louca do mundo. A linha que separa uma coisa da outra é a fé. Parece-me que há grandes obras que o espírito humano é capaz de fazer, com a Graça de Deus: trabalhar, fazer coisas úteis e giras, como um arquitecto faz uma casa, um engenheiro faz um GPS, ou um programador faz um software inteligente. É bom ser-se um humano simpático, com sentido de humor, ter-se bons valores e alguma profundidade de vida. Indo um bocadinho mais longe, há quem faça grandes pinturas, obras de arte que conseguem "falar" a pessoas de todas as culturas através dos tempos sem dizerem uma só palavra. E por aí fora - há muitas coisas boas que as pessoas fazem.

Mas um padre... um padre não "faz" nada de concreto. Ele fala sobre as coisas que sente e em que acredita, dá-se com as pessoas, sofre com elas e elas confiam nele, na sua pureza, na sua sabedoria, na autoridade moral e espiritual que depositam nele. A sua obra é diferente: é suscitar uma mudança invisível nas mentes e nos espíritos, um "regresso a casa" no coração das pessoas que ninguém sabe como é que acontece. Essa é a sua obra mas não é ele que a faz. Ele contribui com a sua própria vida, sendo simplesmente quem é e mostrando aquilo que tem: uma luz dentro de si que se alastra por si mesma. Ele só se deixa inflamar por ela, e ela sai por aí alastrando-se a outros que também gostariam de a ter, embora talvez não soubessem que a desejavam. Como eu disse, isto é um bocado louco... ou então é a coisa menos louca do mundo.

É engraçado que o mesmo se pode dizer da Eucaristia: aos nossos olhos é uma coisa pequena, fininha, umas migalhas de farinha; mas aos olhos do espírito e do coração que vêem mais do que as aparências, é também o próprio Deus a oferecer-se assim mesmo - de graça, Exposto, frágil, a qualquer um que se converta a Ele. É uma grandeza muito grande numa pequeneza muito pequena. O que é muito louco (ou então é a coisa com mais sentido do mundo).

Ao assistir à primeira missa dum novo Padre, sinto um bocadinho o mesmo que ao assistir a um casamento: como é grande o que está a acontecer. E apesar de tantas, tantas vezes a vida de tantos casais correr mal, penso: como é sempre novo, único, verdadeiro e cheio de sentido, cada casamento. Porque não é uma coisa só humana, tal como não é só o ser humano que faz um Padre. É Deus. Cada casamento e cada ordenação são um momento suspenso no infinito que recebe toda a atenção de Deus, que está lá Todo e Inteiro. Será que é mais louco acreditarmos nisto do que na Eucaristia? Por que tentamos diminuir a profundidade do casamento, se acreditamos em coisas ainda menos "plausíveis" como a Eucaristia, a Ressurreição, e todo o conjunto que é o Evangelho? Por que se deseja, sequer, receber a Eucaristia, se é mais difícil e exigente acreditar nela do que no próprio casamento em que se deixou de acreditar? É lógico que, se uma coisa menor é posta em causa, com muito mais razão se põem em causa as maiores, porque precisam de mais "loucura" do que as menores. Por isso, quando pomos em causa que o casamento cristão seja indissolúvel - que Deus o pode sustentar com a Sua graça, que por mais tempo que passe o sacramento continua lá e ainda pode voltar a ser honrado - automaticamente pomos em causa também todas as outras coisas em que acreditamos, maiores do que essa.

Por mais casamentos que corram mal ou por mais padres que se afastem da Verdade, cada casal e cada Padre são e sempre serão sagrados e confirmados pelo Espírito Santo. E isto não quer dizer que ficaram presos a isso para sempre, mas o contrário: que encontraram para sempre o caminho da sua libertação, da sua redenção. Não só da sua, mas de toda a Igreja.

Já há algum tempo que sinto que estas duas dimensões católicas - o casamento e o sacerdócio - estão a ser atacadas pelo "Enganador". O Enganador (ou o Acusador, ou o Tentador, ou o Ciumento) é aquele que durante a noite deitou joio no meio do trigo que Deus tinha semeado durante o dia no Seu campo, que somos nós. O trigo é o que nos alimenta e nos dá a Vida; o joio é o que nos mata. E é precisamente porque o joio é muito parecido com o trigo que é passível de ser misturado com o trigo sem se notar, até se manifestar nos seus frutos. Uma aparência de bem que afinal é má - que nos mata no espírito, na alma.

Tenho esperado com muita vontade por coisas pequenas que tenham significados grandes, que sirvam de sinal, de orientação, de alento e de confirmação. E eis que elas vão aparecendo: o nosso querido Papa Bento XVI, sem dizer quase nada, disse tudo. E não precisou de mais. Numa mensagem sua que foi lida no funeral do Cardeal Joachim Meisner (um dos quatro cardeais que pediram ao Papa esclarecimentos através das famosas "Dúbia"), o Papa Bento XVI revelou que estava em contacto frequente com o Cardeal Meisner, o que é sintomático. E a maneira como fala sobre a vida recente do Cardeal, indissociável da grande crise actual na Igreja, é clara: " (...) en este último período de su vida, aprendió a dejar ir y vivir de una profunda convicción de que el Señor no abandona a su Iglesia, incluso cuando el barco ha asumido tanta agua que está a punto de volcarse." O Senhor não abandona a Sua Igreja, e o Papa Bento XVI também não.

Graças a Deus por tudo isto! Acredito profundamente na vocação deste grande homem a cuja Missa Nova fui ontem e acredito na Igreja, ainda que a barca esteja a ponto de se afundar. Acima de tudo acredito em Jesus, que é o único Caminho, a única Verdade, e a única Vida. Atrevo-me a "exortar-vos" que acreditem no mesmo que eu, porque é isso que nos dá a Vida.

Aqui, as palavras do Papa:

"A esta hora, cuando la iglesia de Colonia y los fieles de otras partes se reunieron para decir adiós al cardenal Joachim Meisner, mi corazón y pensamientos están con ustedes también,  y aceptando alegremente la invitación del cardenal Woelki, deseo dirigir unas palabras de recuerdo para mi amigo.

Cuando oí hablar de la muerte del cardenal Meisner el miércoles pasado, no quería creerlo. El día anterior habíamos hablado por teléfono. Estaba agradecido por el hecho de haber estado de vacaciones después de haber participado en la beatificación del obispo Teofilius Matulionis en Vilna, el domingo anterior (25 de junio) y tenía una voz clara.

El amor a la Iglesia en los países vecinos de Oriente, que había sufrido tanto bajo la persecución comunista, así como la gratitud por los sufrimientos de aquel tiempo, forjaron su vida. Y así no es ninguna coincidencia que la última visita de su vida fuera para un Confesor de la Fe en esos países.

Lo que particularmente me impresionó en esa última conversación con el cardenal retirado, fue la alegría suelta, la alegría interior y la confianza que había encontrado. Sabemos que a este apasionado pastor le resultaba difícil abandonar su puesto, especialmente en un momento en que la Iglesia se encuentra en una necesidad particularmente apremiante de pastores convincentes que puedan resistir la dictadura del espíritu de la época y que vivan y piensen la fe con determinación. Sin embargo, lo que más me emocionó fue que, en este último período de su vida, aprendió a dejar ir y vivir de una profunda convicción de que el Señor no abandona a su Iglesia, incluso cuando el barco ha asumido tanta agua que está a punto de volcarse.

Dos cosas en los últimos tiempos que le agradaron más que nada:

Por un lado, él siempre me ha dicho cuán profundamente se alegraba de cómo en el Sacramento de la Penitencia los jóvenes, especialmente los jóvenes, están experimentando la gracia del perdón – en el Don, han encontrado la vida que sólo Dios puede dar.

La otra cosa que siempre le ha tocado y le ha dado alegría, fue el tranquilo crecimiento de la Adoración Eucarística. En la Jornada Mundial de la Juventud de Colonia, su punto central era la Adoración, un silencio en el que solo el Señor hablaba al corazón. Algunos expertos pastorales y litúrgicos consideraron que ese silencio al mirar al Señor no puede lograrse con un número tan grande de personas. Algunos eran también de la opinión que la Adoración Eucarística fue alcanzada como tal, por la Misa, ya que el Señor sería recibido en pan eucarístico. Pero que este pan no se puede comer como cualquier alimento, y que el sacramento eucarístico «acoge» todas las dimensiones de nuestra existencia - que la recepción debe ser el culto, se ha convertido en algo muy claro. Así, el tiempo de la Adoración Eucarística en la Jornada Mundial de la Juventud de Colonia se ha convertido en un evento interior, que permaneció inolvidable para el Cardenal.

Cuando, en su última mañana, el cardenal Meisner no apareció en la Misa, fue encontrado muerto en su habitación. Su Breviario se le había escapado de las manos: estaba orando mientras moría, mirando al Señor, hablando con el Señor. La muerte que se le concedió, muestra una vez más cómo vivió: mirando al Señor y hablando con él. Así podemos recomendar con confianza su alma a la bondad de Dios. Señor, te damos gracias por el testimonio de tu siervo Joaquín. Que sea intercesores de la Iglesia de Colonia, y de toda la Iglesia terrenal! ¡Descansa en paz!"


domingo, 22 de janeiro de 2017

O Silêncio, de Scorsese

Saí do cinema com três sentimentos, um positivo e dois negativos: impressionado, desiludido e triste. Impressionado com a beleza do Japão e da sua cultura, a fé e determinação das primeiras comunidades cristãs e dos missionários jesuítas do séc. XVII, muito bem retratados na primeira parte deste filme. É indescritivelmente bonito o facto de alguém entregar a sua vida por Jesus, percorrer milhares de quilómetros com riscos inimagináveis, a transbordar de paixão e de fé. Mas também saí desiludido, porque achei que me ía deparar com melhores argumentos sobre uma perspectiva de fé que, pelo que tinha lido, me iria desafiar. Esperei para ver quando me iriam convencer de que sim, às vezes Deus pede o contrário daquilo que pensamos e que os Evangelhos e a Igreja anunciam; quando me iriam convencer de que a fraqueza humana legitima a ambiguidade moral como uma resposta “realista” aos desafios do cristão. Achei esse tipo de argumentos muito fracos no filme, o que me surpreendeu.

Também saí do cinema um bocadinho triste com o momento actual da Igreja no mundo, porque o que realmente gostaria de ter visto era uma grande e profunda obra sobre o cristianismo, feita por um grande realizador, que me fizesse penetrar nos meandros psicológicos e espirituais da fé católica com toda a sua riqueza e beleza, vista com conhecimento e sensibilidade. Mas parece que nós, católicos, estamos muito atrasados no nosso caminho, e se o mundo estivesse de boa saúde este realizador seria um interessado pelo verdadeiro cristianismo e não por uma versão ambígua da fé; este filme seria sobre uma experiência espiritual mais pura, e a preferência das audiências seria mais exigente. Constato que não é assim, por isso fico um bocadinho triste. Parece que a simplicidade e a sobriedade de Deus não satisfaz os desejos dos intelectuais do nosso tempo, fora e dentro da Igreja.

Para que esta minha reacção não fique vaga e sem fundamento, vou dar alguns exemplos de ideias presentes neste filme que me parecem falhar o alvo:

1. A tensão interior, a ambiguidade e a dualidade como verdadeira natureza humana e lugar mais profundo da fé.
Ultimamente tem-se criado esta ideia de que o Homem, interiormente, tem uma natureza dual, subjectiva, paradoxal, que é difícil ou impossível de se conciliar com uma proposta de fé que seja total, objectiva e universal. Mas na realidade a divisão interior humana provém do mal e do afastamento de Deus, vive da ausência duma vida espiritual pura. É exactamente pela aproximação do coração humano ao Espírito Santo que esta dualidade é ultrapassada. O Espírito Santo é Aquele que ilumina, cura, consola, dá clarividência e harmonia. Pensar-se que Deus quer ou pode relacionar-se com o Homem dentro desta dualidade sem que ela seja claramente resolvida, é negar o poder de Deus e da conversão humana. É precisamente na medida em que nos convertemos que vamos deixando de sentir divisão interior, dualidade e ambiguidade. Mas no filme sugere-se que ao aproximarmo-nos de Deus estaremos mais à vontade com os paradoxos da nossa vida interior, permanecendo neles. Sugere-se que Deus pode pedir-nos que O sirvamos dentro dessa falta de resolução e até em oposição à doutrina da Igreja, como se houvesse uma sabedoria maior na ambiguidade do que na unicidade. É fácil de ver como isso também implica uma desvalorização forte da Igreja, dos seus ensinamentos e rituais como sendo meras estruturas invasivas que não compreendem o coração humano e que chegam a contrariar a acção de Deus nele.

2. A fidelidade à doutrina e aos sacramentos da Igreja como uma forma de imaturidade psicológica e espiritual.
O filme sugere que o zelo e a fidelidade à doutrina da Igreja, aos seus rituais, liturgia e sacramentos, são traços de pessoas psicologicamente mais jovens e imaturas, tais como os padres protagonistas do filme. Há a idéia de que, à medida que uma pessoa cresce em sabedoria, em experiência e em auto-conhecimento, começa a distanciar-se da ligação directa e indissociável que a Igreja acredita haver entre a liturgia, a doutrina, os sacramentos e a espiritualidade individual. Nessa perspectiva, uma pessoa mais “sábia” constataria que não é preciso ser-se “rígido” em relação aos gestos exteriores e aos ideais universais, e que até poderia haver uma contradição inofensiva entre diferentes gestos e ideais opostos entre si - sendo essa contradição um sinal de maior maturidade e duma maior capacidade de lidar com a realidade. Isto contraria o ensinamento da Igreja, que obviamente defende uma ligação estreita e directa entre todos os aspectos da fé, vendo a liturgia e os sacramentos como exercícios conscientes e profundos de oração, praticados com intencionalidade e sabedoria espiritual.

3. Os novos “bons” são os fracos, os caídos, os incoerentes.
Aqui é precisa muita atenção para se distinguir uma ideia boa que existe na Igreja, duma ideia má que se propõe no filme. A Igreja valoriza o pecador, não desiste dele, propõe-lhe o arrependimento, a conversão e o perdão, aceita o valor intrínseco do Homem quer seja mais ou menos pecador. Deus ama-nos sempre. Mas isto é muito diferente de se afirmar que Deus não nos quer santos, perfeitos e irrepreensíveis, e que não é uma tragédia permanecermos no pecado. O filme parece sugerir que existem diversos caminhos para Deus, quase igualmente bons, e que alguns desses caminhos consistem em ser-se um “bom pecador”, como a personagem Kichijiro. Há a sugestão de que a perfeição não está ao alcance de todos e que para alguns a sua vocação na Igreja será aceitar a sua impossibilidade de ser melhor, confessando-se repetidamente pelos mesmos pecados. Há mesmo uma suave exaltação da suposta autenticidade destas pessoas que rejeitam uma visão heroicista do santo (que seria até desnecessária e prejudicial em alguns casos), representando uma versão humana mais realista, menos cínica, menos hipócrita do cristão - assim como uma Igreja mais benevolente, mais compreensiva, mais próxima das pessoas pelo facto de recusar ser “moralista”.

A propósito deste grave engano lembro-me de que, nos dias seguintes à morte dum actor português famoso, houve vários testemunhos públicos duma característica sua que as pessoas elogiaram bastante: ele teve várias mulheres. Não foi fiel, não foi capaz de experimentar a riqueza duma intimidade conjugal suficientemente profunda, vitalícia, caíu no pecado do adultério com diferentes mulheres. No entanto, fê-lo duma maneira simpática e afável, assumindo a sua fraqueza, a sua incapacidade, e isso parece ter feito dele um homem “bom” aos olhos da opinião pública. Um “bom pecador”, alguém que não pretendia cinicamente ser melhor, que se aceitava como era, e isso era visto como um bem. Essa mesma ambiguidade aparece neste filme e corresponde a um modelo actual de bondade que está muito corrompido. As pessoas fazem uma espécie de “pacto de mediocridade” que promove a solidariedade entre pecadores e que as ajuda a não terem que mudar, preferindo isso a aspirar à felicidade verdadeira e à santidade anunciada nas bem-aventuranças. Porque, no fundo, não a compreendem. É um nivelamento por baixo que tem afectado a teologia actual: os “novos bons” são aqueles que se reconhecem incapazes e que se entregam ao realismo da sua condição fraca e dual, procurando algumas ocasiões de virtude passageira mas sem exageros, sem heroicismos perfeccionistas.

Na realidade, apesar de Deus amar o pecador, não ama o pecado. Não passa pela vontade de Deus para ninguém que essa pessoa permaneça num estado de impasse. Nem Deus olha para essa realidade com uma aceitação benevolente. Deus sofre com cada queda nossa, nós sofremos com cada queda nossa, e o facto de a Igreja pregar o arrependimento e a conversão não se trata dum perfeccionismo rígido. É, acima de tudo, para a nossa felicidade, mas é também porque é a verdade. Não é bom confundirmos a misericórdia de Deus com a conivência de Deus. É uma distinção subtil e fundamental não só na análise deste filme como da situação actual da Igreja.

4. Há situações em que é impossível seguir a vontade de Deus, e nessas situações Deus pode pedir-nos que cometamos pecados para conseguirmos outro bem.
Deus não é um sádico. Aquilo que nos propõe nunca é impossível para nós. A ideia do mal menor está presente neste filme ao sugerir-nos que o Japão, naquele tempo, não seria capaz de tolerar o cristianismo, e que por causa dessa impossibilidade seria desejável um caminho mais gradual, menos radical, mais negociante e estratégico entre os missionários e as autoridades. Esta seria uma das boas razões para a apostasia por parte do protagonista, juntamente com a possibilidade de poupar vidas que seriam mortas caso ele não apostatasse. Deus teria chegado até mesmo a fazer-lhe sentir a Sua voz para confirmar esta inversão de bens e de males na sua mente imatura e desnecessariamente atormentada. O padre parecia confrontar-se com uma experiência de Deus que não encaixava nos seus preconceitos mentais, e a capacidade de aceitar o contrário daquilo em que acreditava é apresentada como uma forma de crescimento pessoal.

Ora, sendo verdade que existe um caminho de crescimento na compreensão da vontade de Deus na vida de cada um - com surpresas resultantes de confrontos entre ideias imaturas que estão em evolução contínua à medida que um cristão cresce na fé - é, por outro lado, totalmente falso que em algum momento desse percurso aconteçam situações paradoxais tais como a que se apresenta no filme, em que Deus nos peça que O neguemos a Ele ou a outras verdades essenciais da fé. Assim, este filme pega numa verdade para sugerir uma mentira, lançando confusão nos corações menos precavidos contra armadilhas deste género.

Um dos sinais mais fiáveis no processo de discernimento espiritual cristão é a verificação da coerência que existe ou não entre uma inspiração pessoal e o conjunto alargado da fé na qual essa inspiração se integra. Coerência é a chave de leitura. A árvore vê-se pelos seus frutos, o que significa que existe um fio condutor entre o princípio, o meio e o fim das realidades espirituais. Não é cristã a ideia de que Deus possa quebrar algum aspecto da doutrina em benefício de outro aspecto da mesma doutrina. Para Maquiavel os fins justificavam os meios, mas para Deus não.

Nem sequer para poupar a vida de terceiros. Se hipoteticamente alguém ameaçasse a vida de terceiros, submetendo-a à condição de que uma pessoa cometesse um pecado grave, a responsabilidade por esse sofrimento seria exclusivamente de quem fizesse a ameaça chantagista. É preciso separar bem as fronteiras da responsabilidade de cada um para que não nos vejamos envolvidos em teias perversas de pressões maquiavélicas. O pecado nunca é legítimo aos olhos de Deus. Nem quando pareça ser um mal menor nem quando pareça ser uma forma de caridade, o que seria contraditório. Não existe nenhuma forma de caridade que passe pelo pecado. A vontade de Deus num aspecto nunca implicaria uma falta noutro aspecto, pois ambos dizem respeito à mesma vontade de Deus e esta não é separável em partes nem se contradiz. Isto vale tanto para a situação retratada no filme como para qualquer outra, incluindo muitas que estão em debate aceso na Igreja actual.

Neste ponto torna-se relevante uma característica particular segundo a qual se diz que o Espírito Santo actua: segundo Jesus, quem faltar a uma vírgula da Lei estará em falta para com toda a Lei. Não se trata dum “sistema de pontos” em que mais pontos nos darão mais benefícios, mas é preciso que tenhamos a “ficha limpa”: que estejamos em estado de graça, perdoados e convertidos de todos os nossos pecados graves. Esta lógica é contrária à lógica do mal menor, porque um mal menor colocar-nos-ia fora da graça de Deus tanto quanto o mal maior, independentemente da diferença de gravidade entre um e outro. Deus age poderosamente quando respeitamos o todo sem exclusão de nenhuma parte. Pelo contrário, Deus deixa-nos entregues às nossas próprias forças quando agimos separados dele, quando o recusamos. E pelas nossas forças não fazemos absolutamente nada: nem evangelização, nem testemunho, nem bem maior ou menor.

5. Se a motivação para uma boa acção é má, deve-se rejeitar essa acção em vez de se procurar a boa motivação.
Esta última ideia, que vale a pena incluír, é muito clara. No filme, o protagonista parece chegar à conclusão de que está a ser demasiado orgulhoso no seu desejo de martírio e que, se esse desejo assenta numa busca de glória pessoal e no seu orgulho, a atitude certa seria deixar-se de heroicismos e aceitar a apostasia, até porque com isso estaria a evitar a morte de terceiros. Uma misturada de raciocínios confusos que quase nos faz perder de vista a correcta hierarquia de valores: claro que em primeiro lugar se deve fazer o bem pela motivação certa; mas, se não escolhermos o bem pela melhor motivação, devemos rejeitá-lo, preferindo o mal? Claro que não. Preferir um mal para não se ser orgulhoso é uma falsa forma de humildade e é um mal ainda pior do que o primeiro.

Conclusão
Não é verdadeira a hipotética relação entre martírio e apostasia que “O Silêncio” propõe. Esta tentativa de relativização da verdade, propondo-se uma alegada desconstrução de “preconceitos”, substituindo-os por ideias ambíguas, não é uma tendência nova. A reflexão que o filme tenta promover não é feita com neutralidade mas sim a partir de posições conceptuais muito questionáveis e que estão subtilmente implícitas na narrativa. O resultado não é a libertação dos preconceitos e dos limites mentais da audiência, mas sim uma perda de importantes critérios orientadores no crescimento espiritual de crentes e não-crentes.

Claro, também há neste filme aspectos muito positivos como a descrição forte e bonita dos martírios dos crentes desse tempo, que foram verdadeiros santos anónimos, e não deixa de ser uma obra cinematográfica com aspectos estéticos e artísticos muito bons. Mas a mim, pessoalmente, as partes negativas fazem-me perder interesse pelo resto. Preferia não ter que ser exposto a reflexões e dilemas em que não encontro sentido nem verdade, e gostava muito mais de estar totalmente alinhado com o espírito do filme para poder saboreá-lo realmente.


Para terminar: a quem convém que se descreva a fé cristã da maneira que é descrita no filme? Em que lógica se insere? Que perspectivas actuais estão em linha com a proposta apresentada? Parece-me claro que a resposta é que este filme se insere na lógica de quem defende que existem situações especiais em que a doutrina da Igreja não responde adequadamente à vontade de Deus, e em que se deve fazer o contrário do que é desejável noutras situações; que não se pode assumir uma leitura universal do que é bom e do que é mau, e que estes se definem a partir da experiência complexa de casos específicos e subjectivos. Como disse, a árvore vê-se pelos seus frutos, e cada coisa insere-se num fio condutor. Dito isto, compete a cada um tirar as suas conclusões.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Sexta-feira Santa

“O Reino dos Céus é ainda semelhante a um comerciante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.”
(Mt 13, 45-46)

Tudo, no que diz respeito à Palavra de Deus e à Sua intervenção na História, está escondido e sujeito a ser encontrado por quem O busca. Deus não se fez óbvio… quis que a fé precedesse o encontro, e por uma Boa razão. A pérola de grande valor - um valor que não só inclui de alguma maneira a essência de tudo o resto que queiramos possuír, mas que ainda ultrapassa em muito o valor do seu conjunto - essa pérola está escondida debaixo duma ostra que são as ilusões e enganos do mundo. Aquilo que é loucura para os olhos do mundo – um Homem que prometia a restauração do Reino e acaba pregado num Madeiro - é Sabedoria de Deus.

Há muito quem só veja aí uma ostra feita de imagens explícitas de sangue e de horror, para onde nem apetece olhar. Mas quem encontrar aí a pérola escondida que procura no fundo do seu coração, encontrará também aí a Ressurreição. Bem-aventurada essa pessoa, porque descobriu que o melhor ainda está para vir.



Sábado Santo

O dia do silêncio, do vazio, do mistério. Nele estão todas as nossas falhas em compreender o sentido dos acontecimentos. Há situações extremas em que o salto da confiança nos pede para entregarmos tudo. Um salto no vazio, para lá dos falsos controlos a que nos agarramos. Contra todas as aparências esperar, confiar, permanecer fiel. Silenciar a mente nas suas desajeitadas tentativas de abarcar uma realidade que vai sempre além dos nossos horizontes.

Um silêncio que puxa por nós, que nos despoja, nos despe até às nossas entranhas e nos expõe na nossa matéria mais prima, primitiva, primária. Na nossa carne, no nosso sangue, nas fundações e alicerces do nosso sentir - na nossa verdade maior. É o tempo da fé se entregar ao corpo e ao sangue, a cada bater do coração, a cada respiração. E só permanecer aí, sem mais nada.

O silêncio. Qualquer palavra, qualquer pensamento, são ridículos, desadequados, frustrantes, insuficientes. No silêncio encontramos Deus no Seu mistério maior e nos descalçamos e nos ajoelhamos, tal como Moisés perante a sarça ardente. Estamos em terreno sagrado. É o tempo da provação.

O vazio. Por que o tememos tanto? Está escrito que o mundo engana, e um dos maiores enganos que o mundo nos prega é o medo do vazio. Desolação, desamparo, confusão... abandono, solidão.
Que melhor negação de Deus do que essa? Se Deus não existe, o vazio será o lugar da maior desolação que um homem pode experimentar. Mas o Reino de Deus está no meio de nós - entre nós, através de nós, dentro de nós, por cima e por baixo de nós.

O mundo nega a Deus fugindo do vazio; Deus nega a mentira do mundo revelando-se nesse mesmo vazio. E milhares e milhões de homens e mulheres retiraram-se para o deserto, fecharam-se em celas, peregrinaram pelo mundo, fazendo tudo para estar face a face com o grande vazio. Mas não foi isso que encontraram.

O Sábado Santo era necessário.



Domingo de Páscoa

“O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito”.

Houve duas grandes explosões. A primeira gerou o espaço e o tempo, a matéria e todos os limites, escalas e formas - o Universo. A segunda rebentou com o espaço, com o tempo, com a matéria, os limites e as escalas. Deus não gosta de limites. Neste mundo, as estrelas e os planetas são desenhados por um círculo perfeito que separa o que está fora do que está dentro, e um corpo do outro. Tudo isto é deslumbrante, mas não passa de um prenúncio da perfeição das “coisas futuras”, quando vierem os novos Céus e a nova Terra. Em Deus, as coisas não estão separadas mas convergem na sua essência, que é una. Uma só coisa é necessária: há uma coisa que reúne em si mesma todas as outras e para as quais todas convergem. Nos novos Céus e na nova Terra haverá um só Círculo, um só Centro, uma só Estrela. Uma só alma e um só coração.

Só o Amor que vem do Alto é capaz de criar, curar, restaurar, e ressuscitar. Esse Amor cria Universos e rebenta com Universos. Quem alguma vez se apaixonou sabe como aquilo que antes lhe parecia impossível se tornou possível pelo Amor. A paixão, o enamoramento, é uma metáfora apropriada para descrever o Caminho de Deus connosco. O Amor rebenta, expande, re-cria, ressuscita aquilo que estava morto. Deus É Amor.

Era necessário Alguém que nos mostrasse o caminho da Ressurreição. Já todos o sabíamos no nosso fundo, intuíamos por dentro, que não existem fins mas apenas princípios. Não só o Espírito Santo nos falava disso através dos profetas, também o canto dos pássaros, as alvoradas, os céus estrelados, toda a Criação nos parecia dizê-lo. Essa mensagem foi transmitida por cada noite a cada dia e por cada dia a cada noite desde o princípio dos tempos. E nós podíamos ouvir o seu sussurro, bem baixinho, quando fazíamos silêncio. No silêncio são ditas as coisas mais importantes. Mas era necessário Alguém que fosse o Primeiro de muitos.

A segunda grande explosão é a Ressurreição de Jesus, o Messias, Aquele que restaura todas as coisas. Essa explosão não se vê com os olhos de fora - os deste mundo - mas com os olhos de dentro – os do espírito.


Aleluia!!!


domingo, 12 de abril de 2015

"Eu desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco"

Às vezes, a leitura da Palavra esconde o mais importante no pormenor mais simples, tão simples que até nos passa completamente ao lado. “Eu desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco”. Aqui, a nossa atenção vai facilmente para a segunda parte, “comer esta Páscoa convosco”. Mas a maior maravilha está na primeira parte. “Eu desejei ardentemente”.

O que é desejar ardentemente? O que é preciso para se desejar ardentemente alguma coisa? Quando foi a última vez que eu desejei ardentemente?

“Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” Arder o coração. Ser-se consumido por dentro, mas duma maneira que é boa. Um coração ardente sente-se expandido e apertado ao mesmo tempo. Uma comoção, um toque, um encontro. Uma dor e um prazer, um paradoxo. Aquilo que não se pode conter, transborda. Por que é tão bom arder?

“Eu vim trazer fogo à terra. E que quero eu, senão que ele se acenda?” Tantas vezes queremos nós prender a Palavra. Circunscrevê-la, defini-la, explicá-la. E ela escapa-se-nos por entre os dedos. Esta Palavra tem uma qualidade viscosa muito fina. Ela é capaz de penetrar pelos mais pequeninos poros da nossa pele e transcendê-la, banhá-la, esvaír-se. E ao banhar-nos ela enche-nos, e atiça-nos. Ela não se deixa prender. “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai.” Esta Palavra não é deste mundo. Ela está viva.

Ela é redonda, concêntrica, dinâmica. Repete-se sem nunca se repetir. Tem uma cadência que embala. As suas diferentes partes dançam e brincam entre si, dando testemunho umas das outras. Ela é coerente, mais sólida que o diamante mais puro. Ninguém a consegue quebrar. Ela emana dum centro e ramifica-se, mas convergindo sempre para o centro. Ela inspira coisas diferentes a pessoas diferentes, e à mesma pessoa em diferentes momentos.

“Com efeito, há nela um espírito inteligente e santo, único, múltiplo e subtil, ágil, penetrante e puro, límpido, invulnerável, que penetra todos os espíritos, os inteligentes, os puros e os mais subtis.”

“Eu desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco.” Eu ardo desejando, eu desejo ardendo. Eu desejo arder.

Esta Palavra faz viver, dá-nos vida na parte mais profunda de nós. Ela é mais forte do que a morte. Ela é fiel. Tão fiel, que nós não compreendemos essa fidelidade louca e total. Nós não compreendemos a fidelidade. A fidelidade, para nós, é relativa e condicional. “Uma geração perversa e adúltera.” Uma geração que perverte o sentido das coisas, que não compreende a pureza, a totalidade. Que relativiza, que justifica a distorção para validar o engano. Esta é uma geração adúltera.

Não se trata das pessoas deste século ou daquele. É o Homem que é adúltero. É o herbívoro que se aproveita do trabalho da planta, e vive dela. É o carnívoro que se aproveita do trabalho do herbívoro, e vive dele. É o Homem que se aproveita do seu irmão, e vive dele. O mundo é adúltero, as suas raízes têm egoísmo, infidelidade, mentira. O mundo foi construído com essa argamassa no meio do resto. É o Homem que se prostitui, que se vende, que se perde de si mesmo. O Homem está constantemente a perder-se de si mesmo e a tentar voltar a encontrar-se.

A Palavra usa muito esta metáfora para o seu povo: a prostituta. O povo prostitui-se. Eu prostituo-me. Todos nos prostituímos todos os dias. Trocamos a nossa vida na sua versão maior por outras versões baixas, mesquinhas, por vidas menores. Vendemos partes de nós ao desbarato, por algumas migalhas, algum sucesso, algum prazer, pouco. Não somos totais, não estamos totalmente em alguma coisa, com alguma pessoa, com alguma causa. Fazemos cedências de princípios nas nossas actividades, como se a verdade fosse negociável ou passível de ser fragmentada por uma questão de estratégia. Não somos totalmente fiéis, nem sequer a nós mesmos.

A fidelidade - tenho pensado nisto. Não há confiança sem fidelidade; não há verdade sem fidelidade; não há amor sem fidelidade, e nem sequer amizade. E não é uma coisa que se possa controlar externamente, através de propósitos, por melhor intencionados e generosos que sejam. “Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.” A fidelidade não é uma característica da acção visível, mas sim do coração invisível. “E achaste o seu coração fiel perante ti.”

A fidelidade é uma coisa do coração. Só há uma única maneira de a garantir: pela conversão do coração. A conversão total, profunda, abrangente, global, do coração. E o coração converte-se pelo fogo: ardendo.

Demasiadas vezes nós, prostitutos, adulteramos a fidelidade. Diminuímo-la, reduzimo-la ao cumprimento de algumas obrigações e chamamos a isso fidelidade, apesar de o nosso coração não estar inteiro ou perto. "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." Encaixamo-la numa regra ou num contrato, juramos e prometemos, tentamos canalizá-la, controlá-la, comprá-la...

Mas sem um coração apertado, expandido, arrependido, convertido, lavado… Sem um coração ardente… tudo isso será em vão, na sua maior parte. E o coração é livre, sempre, por mais cercado que esteja. "Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração."

“Eu desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco.” A Palavra não se contenta com migalhas. Ela é humildemente ambiciosa. O que a Palavra deseja ardentemente é o nosso coração, e o nosso coração foi feito para ela.

Aleluia!



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mártires

Claro que as vítimas cristãs são tão trágicas como as outras, não existe um ranking do que é mais bárbaro, se matar por uma crença, ou outra coisa qualquer.

Mas cristãos assassinados tocam-me muito, pois faço exactamente o mesmo que eles fazem aos Domingos e não só. As mesmas frases, modelos, interrogações, e desejos. Para além da tragédia, vejo muita beleza em morrer-se por Jesus, coisa que não vejo noutros motivos. É como morrer por uma poesia que dá vida a tudo o que existe, que faz correr o sangue nas veias de todos os seres vivos, que dá luz ao fogo e côr à luz.

De facto, é a essa única poesia que todas as outras se referem, como prenúncio e como aspiração. Essa beleza parece que podia ser vista nos olhos de Santo Estêvão, o primeiro mártir, de quem se diz que, antes de morrer, "cheio do Espírito Santo e de olhos fixos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé, à direita de Deus". Aqui ficam os nomes deles, porque é assim que Deus os conhece e ama, pelos seus nomes.